terça-feira, agosto 08, 2006

Um encontro inusitado

No ano passado, nós nos apresentamos no almoço do Dia dos Pais lá no Aconchego da Zuzu. Só Horácio e eu. E pra mim foi uma experiência que talvez nem consiga traduzir em palavras. Mas vou tentar.

A casa estava cheia. Muitas famílias. Uma gente simpática, feliz, trocando sorrisos o tempo inteiro. Iniciamos e, inexplicavelmente, optei por começar com uma canção com a qual nunca havia iniciado antes: "Onde estará o meu amor" de Chico César. Vocês devem se lembrar, pois ela foi também gravada por Bethânia. O início diz assim:

" Como esta noite findará
E o sol então rebrilhará
Estou pensando em você
Onde estará o meu amor?"

Exatamente depois disso, fui acometida por um acesso de choro tão incontrolável que as minhas amigas que servem as mesas vieram ao meu socorro, preocupadas, pois eu soluçava de um jeito ...
Levei um bom tempo até conseguir me refazer e retomar o trabalho.

Imaginem a cara de Horácio diante da cena, sem entender nada? Coitado!
E sem entender nada estava eu também. Nunca em minha vida inteira senti o que senti naquele dia. Repito: não há como descrever. Era como se alguma coisa me forçasse a chorar. Eu não estava triste, nem deprimida. Tudo bem que era Dia dos Pais, mas não me deixo levar por essa jogada comercial, nem estava lembrando especialmente do meu pai, naquele momento. Percebi que uma sensação forte de "presença" acompanhava meu choro. Senti o calor de meu pai ali, junto. Quase como um abraço. E fui me acalmando aos poucos.

Nunca mais esqueci.

Meu pai "viajou fora do combinado” (como diz Boldrin) quando eu tinha dezenove anos.
Aprendi com ele a gostar de música. Lembro que, muito pequenininha ainda, sentada no seu colo, passávamos horas a escutar. Através dele conheci todos os componentes de uma orquestra. Ele adorava me perguntar "que instrumento é esse que você está ouvindo? E esse que está tocando agora?". Graças a ele pude educar o meu ouvido e optar por um repertório de qualidade.

De uma coisa tenho certeza: esteja ele onde estiver, deve ser o meu fã número 1.

13 comentários:

Hera disse...

Desculpe amiga, nao consegui ler o seu post todo.. Meu complexa de Electra é muito forte, e falou em pai, desato no choro...Imagine que nem no karaoke, em casa, brincando, eu conseufgo cnatar "pai" toda... Já virou uma piada nossa... Um beijo grande.

Leticia Gabian disse...

Querida Hera,
Tinha que compartilhar essa experiência na blogosfera. Nesse mundo tão cheio de maluquices, guerras, conflitos e etc., me vejo na obrigação de relatar algo que foge à compreensão e que, certamente, está bem acima das questões mais rasteiras.
Brigadão pelas fotos.
Beijos

travessias disse...

Que ternura a expressão " viajar fora do combinado ".
Grande abraço deste lado.

Allan disse...

Também adorei a frase...

josé oliveira disse...

Compreendo, na própria pele, essa sensação de presença. Pois só quem viu pai ou mãe partir nessa "viagem" pode senti-lo. É virtualmente impossível aceitar que uma alma enorme, um ser humano lindo, não tenha adquirido o direito de perdurar para lá de todas as fronteiras.

Leticia Gabian disse...

José,
Que bom que temos isso em comum. É muito raro as pessaos admitirem ter tido esse tipo de experiência, por medo de se passarem por crédulos sem importância.
bom ter você de volta à blogosfera.
Um forte abraço.

Lâmina d'Água, Silêncio & Escriba disse...

Também aprendi a gostar de música com meu pai, que era um excelente pianista e delirava ao mesmo tempo em que chorava ao teclado, no mais envolvente free jazz... Para além disso, era afinador de pianos e tinha ouvido absoluto... Também foi-se embora antes do combinado e sem aviso prévio e me fez muita, muita falta mesmo... Ainda sinto a falta dele, sem que eu nem mesmo tenha tido tempo de tê-lo... Fiquei com o vazio e a espera por algo que me parece que ainda irá acontecer...

Mas por outro lado, tenho os ensinamentos... Fiquei com os questionamentos... As constantes buscas... O desasossego... os experimentos... Os mesmos gostos... A mesma irrelevância... As mesmas intolerâncias e rebeldia... O andar na contramão... E tudo sem deixar de ver na vida, sempre a maior dádiva e a mais fascinante emoção.

Um bom dia dos pais para teus leitores, teus ouvintes e a todos os homens que de um modo ou tros, passam por tua janela e por tua vida.

Beijinhos,

Cris

Leticia Gabian disse...

Cris,
Um abraço enorme pra você. Pode esperar, pois o vazio certamente será preenchido por algo que ainda está por acontecer. Acredite.
Beijão

caraecoroa disse...

Como foi bom viajar até aqui.
Voltaremos.

Joshua disse...

" viajar fora do combinado " excelente expressão, tem um agrande dose de carinho, incluida! Acredito que o seu pai seja o seu FÃ numero 1!!

Muito sucesso, é optimo fazer aquilo de que se gosta!!

Um beijo

Joshua

Leticia Gabian disse...

Caraecoroa,
Obrigada pela visita. Somente amanhã poderei visitar e conhecer o seu cantinho. Me aguarde. Até lá, um abraço.

Joshua,
É mesmo uma expressão maravilhosa e quase que consegue diminuir a dor por trás dela.
Adorei a visita e amanhã irei conhecer o seu blog. Até lá, um forte abraço.

Leonoretta disse...

sabes leticia? la do alem mar ja conheço ha muito tempo o batista da ilha dos mutuns, se nao conheces vai la que vale a pena, e agora tenho-te a ti. e é bom. é mesmo o pais irmao a lidar connosco.

beijinhos da leonoreta

Leticia Gabian disse...

Leonoretta,
Realmente, a blogosfera foi um achado em minha vida. Conheci e tenho conhecido muita gente boa, tanto daqui quanto de Portugal.
Continuemos a nos visitar.
Beijos